Com um lençol, fino e velho, tento enganar a vida que há lá fora.
Tento me esconder dos raios de um sol novo que alvorece.
É fugindo destes feixes de luzes que tento não sentir uma ausência,
uma saudade,
uma partida.
Duro será conviver com o fardo de não mais escutar a benção diária,
um pedido de pizza,
ou até mesmo algumas reprimendas mandando focar nos estudos;
ser uma pessoa de bem.
É duro saber que em uma praça não mais se encontrará um senhor de
cabelos brancos,
estatura mediana, pele rosada, de lábios pequenos,
por onde saía um sorriso que ganhava todos ao redor.
Um senhor vaidoso,
que sempre após o banho penteava o cabelo para trás, com sua escova
pré-histórica;
que passava o seu perfume e apalpava a camisa que vestia, como quem
dizia:
agora sim.
Triste se faz o momento
ao lembrar que este senhor não mais fará companhia àquele banco de
concreto
e àquela arvore que, com os feixes de luzes (que hoje me ferem), davam
toda vida a cena.
Há, também, de se mencionar sua geniosidade, brincadeiras pesadas,
e porque não dizer, difíceis de suportar, por certas vezes.
Para entender o que eu digo, basta dirigir com ele ao lado, por exemplo,
momento quando tirava a paciência de quase todo ser,
com seus conselhos que mais pareciam ordens,
ou até com suas brincadeiras sem horas.
Enfim...
era humano,
como todos nós.
Na verdade,
quando falo de um senhor,
me refiro a uma pessoa com alma de criança,
pois “Se tem uma coisa que detesto, é velho!”... exclamava.
Uma criança que viveu para a família.
Um verdadeiro pai e avô.
Pessoa que soube dizer ‘não’ e ‘sim’.
Que, apesar da pouca instrução, soube educar.
Trabalhou, não para si, mas para dar uma vida digna a seus familiares.
Que rezava todo dia pedindo paz, saúde e felicidade,
para seus parentes, amigos e conhecidos,
até para aqueles que o deviam.
Não possuía ressentimentos e estava sempre disposto a ajudar.
No inverso, teimava em nunca pedir ajuda.
Enfrentou seus piores desafios de frente, com uma vontade enorme de
viver,
até seu último momento.
Bate então a lembrança do balanço da rede,
o som das orações vindas da televisão,
o chinelo de couro.
É assim que essa primeira hora do dia me aparece.
Trazendo saudades,
deixando-me sentir a ausência de uma pessoa que tanto amo.
Diante as reflexões, esses
feixes de luzes,
que mais pareciam punhais entrando pela janela,
agora se transmutam em mãos zelosas,
trazendo um calor fraterno que, ao tempo em que se extrai lagrimas,
seca-as, com a promessa de que essa criança, hoje, está feliz,
sentado a direta de sua noiva. Protegendo e abençoando seus entes.
Perpetuando seu amor.
Resta, então, apenas o desejo de que essa criança também tenha se
sentido amada,
compreendida,
querida.
Que tenha tido ciência de todo o amor que não conseguia ser guardado no
peito.
Amor este que se fez presente mesmo quando dos desencontros do
dia-a-dia,
do trabalho,
da rotina.
E, como uma permissão para poder continuar a vida, a cada dia,
faço um único pedido.
...
Bênção, vô.
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