quinta-feira, 27 de março de 2014

ENTER (do not press)


Tentei.
Sério.
Juro que tentei..

Sou fraco e não consigo controlar meus instintos.
Consigo não. - riu Sebastião desesperado.

Vi, durante esta noite
um dos maiores conflitos internos
existentes, dentro do meu ser.

E neste campo de batalha
a vontade aliada com o meu esforço físico
perderam a guerra para a lucidez

Pois é.
enquanto os meus dedos se rendiam a abstinência
de não saber notícias de ti
e redigiam frases e textos pelas suas redes sociais afora;
meu consciente não permitia
o movimento mais importante e necessário para essa interação:
a pressão da tecla enter.

Era como se esta tecla me mostrasse vulnerável
Como se te fizesse questionar minhas atitudes.
Era como se esta tecla me fizesse... inconveniente.

Cá estava eu...
esperando que você iniciasse uma conversa
para que, então, eu pudesse escrever,
sem parecer tão inoportuno,
impróprio...
errado.

Para que, enfim, eu pudesse saber
como você estava indo.
como foi seu dia.

Inimaginavelmente
me peguei com saudades daqueles diálogos noturnos,
no qual eu esperava ansiosamente a
madrugada adentrar
para poder despejar toda a minha felicidade
e preocupação para contigo.

Enfim.
Hoje não sei se isso tudo é cuidado
ou zelo.
Talvez apenas vontade de me dedicar à alguém.
Se brincar, algo mais...

Talvez seja apenas amizade, quem sabe?!
(sugeriu-se, Tião, olhando pro céu, tão pensativo)

Não importa....

(falou ele se remoendo por dentro,
segurando o computador,
abrindo e fechando páginas,
teclando e apagando palavras...)

Será que já posso perguntar?

(pausa no monólogo)


(seus dedos se movimentavam)

C-o-m-o---f-o-i---s-e-u---d-i-a-?
(a pressão das teclas exteriorizaram o texto acima)


C-o-m-o---f-o-i---s-e-u---
C-o-m-o---f-o-i---
C-o-m-o---
(backspace).

(o ponteiro do mouse fechou a página que se encontrava aberta
e Tião, tão reprimido, 
fora afogar toda sua aflição
nas penas de seu travesseiro)

Vou dormir - decidiu.

domingo, 16 de março de 2014

Mesa de bar.


(...) perdia-me na sonoridade daquela voz,

tão tímida e ponderada,
que, no uso daquele sotaque gostoso de se escutar,
narrava suas histórias mais cômicas.

Pois é. Estava, eu, lá. – Confessou Tião, sorrindo com o canto da boca, totalmente nostalgiado.
Finalmente estava me permitindo ser atencioso com alguém.

Lembro que a luz local conseguia deixar sua pele menos branca,
seu rosto, em perfil, ficava, a cada gole de cevada, mais rosado.
Sua boca, detentora de lábios finos, cor de pele,
Se ajustava feito moldura naquele sorriso tão singular.
Nem mesmo o brilho gerado pelo metal que lhe envolvia
conseguia tirar sua imensa magnitude.

Seus olhos...
Bem, estes eram castanhos e pequenos.
Se escondiam atrás de uma camada espessa de vidro,
rodeada por uma armação preta que se amoldava, simetricamente,
acima de seu nariz e escondia suas pálpebras avermelhadas.

Eles possuíam um certo magnetismo,
Conseguiam absorver minha atenção.
Me deixavam cada vez mais curioso.
Confuso.
Disperso.

Então, sob um movimento leve à esquerda,
aqueles olhos pousaram nos meus...

Eram fortes, penetrantes.
E dissipavam minha atenção.

Sua própria voz, que me encantava,
naquele momento soava feita canção estrangeira.
Eu não entendia a letra,
apenas sentia o ritmo.

Por questões de segundos, não consegui me desviar.
Aquele olhar despia minha alma.
Estavam alcançando minhas mais profundas vontades...

Aquela sensação era estranha, desconfortável e
Simplesmente, emocionante.

Eu...
só não podia deixar que isso acontecesse...

Então,
meio sem graça,
com um sorriso estampado no rosto,
inclinei minha cabeça,
refugiando meus olhos sob a mesa que nos aproximava.

- vocês vão querer mais alguma coisa?
Moço?
Moço?
O Sr. Vai querer mais alguma coisa?
A casa já está fechando, sua conta deu....